Todo mundo já esqueceu onde colocou as chaves, perdeu o fio de uma conversa ou teve dificuldade de se concentrar em uma tarefa chata. Esses momentos fazem parte da vida, mas quando a desatenção se torna frequente, intensa e começa a atrapalhar o trabalho, os estudos e os relacionamentos, pode ser sinal de algo mais.
O TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) é muitas vezes confundido com distração comum ou falta de disciplina. Entender a diferença é fundamental para buscar o diagnóstico correto e o tratamento adequado.
O que é desatenção “normal”?
A distração pontual é uma resposta natural do cérebro a situações de cansaço, estresse ou excesso de estímulos. Exemplos comuns incluem:
- Esquecer um compromisso depois de uma semana corrida;
- Ter dificuldade de se concentrar em uma reunião muito longa;
- Perder o foco enquanto realiza uma tarefa repetitiva.
Nesses casos, quando as condições mudam, após uma boa noite de sono, por exemplo,, a atenção volta ao normal. A desatenção está ligada ao contexto, não a um padrão persistente.
Quando a desatenção pode ser TDAH?
No TDAH, a desatenção não é situacional. Segundo o DSM-5², ela está presente na maioria dos ambientes e situações, e os sintomas devem persistir por pelo menos seis meses com uma intensidade inconsistente com o nível de desenvolvimento do indivíduo. Os sinais que diferenciam o TDAH da distração comum incluem:
- Dificuldade persistente de manter o foco em tarefas, mesmo as consideradas importantes pelo próprio paciente;
- Perda frequente de objetos do dia a dia (chaves, celular, documentos);
- Esquecimentos recorrentes de compromissos e obrigações;
- Sensação de que a mente “viaja” constantemente, mesmo em conversas;
- Dificuldade em concluir projetos iniciados;
- Impulsividade: agir ou falar antes de pensar;
- Dificuldade em seguir instruções sequenciais.
Para ser considerado TDAH, esses comportamentos precisam estar presentes em mais de um ambiente (como casa e trabalho) e causar prejuízo real na vida da pessoa, conforme os critérios diagnósticos do DSM-5².
TDAH em adultos: um diagnóstico subestimado
Muita gente acredita que TDAH é exclusivo de crianças. Mas a realidade é outra: estima-se que entre 50% e 65% das crianças com TDAH continuam apresentando sintomas clinicamente significativos na vida adulta³.
No adulto, o transtorno pode se manifestar de forma diferente:
- Procrastinação crônica e dificuldade em cumprir prazos;
- Problemas no desempenho profissional;
- Dificuldade em manter relacionamentos estáveis;
- Baixa autoestima relacionada a “falhas” recorrentes;
- Sensação constante de estar sobrecarregado.
O diagnóstico tardio é comum, especialmente em mulheres, cujos sintomas costumam ser mais sutis e menos reconhecidos.
O que fazer se você se identificou com esses sinais?
O primeiro passo é procurar um profissional de saúde, psiquiatra ou neurologista, para uma avaliação completa. O diagnóstico de TDAH não é feito por exames de sangue ou de imagem, mas por uma avaliação clínica detalhada do histórico e dos comportamentos, com base nos critérios do DSM-5 ou da CID-11².
Não tente se autodiagnosticar. Muitos dos sintomas do TDAH se sobrepõem a outras condições, como ansiedade, depressão e transtornos do sono. Um especialista saberá identificar o que está acontecendo e indicar o melhor caminho.
Tratamento: o cuidado que faz diferença
O TDAH tem tratamento e, com o acompanhamento adequado, é possível ter uma vida muito mais organizada, produtiva e satisfatória. O tratamento costuma envolver uma combinação de terapia comportamental, estratégias de organização e, quando indicado pelo médico, medicação.
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Referências
² American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.) – DSM-5. Washington, DC: APA.
³ Faraone, S.V. et al. (2006). The age-dependent decline of attention deficit hyperactivity disorder: a meta-analysis of follow-up studies. Psychological Medicine, 36(2), 159–165. DOI: 10.1017/S003329170500471X



